Irlanda em 2026: cinco ameaças que preocupam o país

Irlanda em 2026: cinco ameaças que preocupam o país

Metrovoz
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Ruínas de castelo medieval à beira de um penhasco na costa da Irlanda, com vista para o oceano sob céu dramático ao entardecer


A Irlanda chega a 2026 cercada por desafios que vão muito além das fronteiras nacionais. Questões de segurança, moradia, economia, clima e tecnologia se cruzam em um cenário complexo, que exige respostas rápidas e bem estruturadas do governo. A seguir, veja as cinco principais ameaças que a Irlanda enfrentará em 2026, segundo análises de especialistas, relatórios institucionais e cobertura da imprensa internacional.

Defesa expõe fragilidade estratégica da Irlanda

O baixo investimento da Irlanda em defesa não é novidade, mas ganhou destaque inédito ao virar manchete em jornais de peso como o Financial Times e o Wall Street Journal. Em um mundo marcado por uma nova ordem geopolítica, com uma Rússia cada vez mais agressiva e atuando por meio de guerra híbrida contra a Europa, a Irlanda passou a ser vista como um dos pontos mais vulneráveis da União Europeia.

A preocupação aumentou após a identificação de drones não reconhecidos nas proximidades da aeronave do presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, durante sua recente visita a Dublin. Soma-se a isso o fato de o país assumir a presidência da União Europeia a partir de julho deste ano, o que naturalmente eleva seu grau de exposição.

Um relatório elaborado pela Deloitte (empresa global de consultoria) em parceria com o Instituto Internacional de Assuntos Europeus detalhou as principais deficiências da defesa irlandesa. O documento classificou como grave a vulnerabilidade de gasodutos e interligações elétricas. A análise chama ainda mais atenção ao lembrar que a Irlanda abriga cerca de 30% de todos os dados da União Europeia e que aproximadamente três quartos dos cabos submarinos do Hemisfério Norte passam por suas águas.

Segundo o relatório, qualquer ataque a essa infraestrutura teria potencial para provocar efeitos em cascata na economia e no dia a dia da população, especialmente devido a falhas no acesso à internet. Os portos também entram na lista de riscos. O Porto de Dublin foi descrito como um ponto único de falha na cadeia de abastecimento nacional. Em um cenário extremo, alimentos poderiam desaparecer das prateleiras dos supermercados em apenas três dias.

O estudo aponta ainda que 90% das empresas irlandesas já sofreram prejuízos financeiros ou interrupções operacionais por causa de ataques cibernéticos. O sistema público de saúde, o HSE (Health Service Executive), ainda lida com as consequências do ataque sofrido em 2021, atribuído a criminosos russos, que gerou um prejuízo estimado em 102 milhões de euros.

Mesmo com o aumento do orçamento da defesa de 1,3 bilhão para 1,4 bilhão de euros, o valor segue muito abaixo do investido por países vizinhos. A Dinamarca, por exemplo, com população semelhante à da Irlanda, gastou cerca de 4,8 bilhões de euros apenas em 2024.

Crise habitacional segue sem solução clara

A habitação continua sendo uma das maiores dores de cabeça do país. Ao longo de 2025, a crise se aprofundou. O número de pessoas em situação de rua aumentou, os aluguéis seguiram em alta e os preços dos imóveis continuaram fora do alcance de grande parte da população.

Mesmo trabalhadores com salários considerados elevados passaram a enfrentar dificuldades para alugar ou comprar uma casa. Para quem recebe menos, a situação é ainda mais crítica. O problema central é o descompasso entre oferta e demanda, impulsionado por um mercado de trabalho aquecido, crescimento populacional e uma economia em expansão.

A construção de moradias avança de forma irregular. Após alguns anos de crescimento, 2024 foi frustrante, com pouco mais de 30 mil casas concluídas, cerca de 2.500 a menos que no ano anterior. Parte dessa queda se explica pela redução de 24% na construção de novos apartamentos.

Os dados dos primeiros nove meses de 2025 mostram uma leve recuperação, com 24 mil unidades entregues. Ainda assim, o número está muito distante das mais de 50 mil casas por ano necessárias para reduzir um déficit estimado em 250 mil moradias.

O governo anunciou medidas para estimular o setor, como a redução do IVA(imposto cobrado sobre o consumo, parecido com o ICMS no Brasil) na venda de apartamentos, mudanças nas regras de aluguel e revisão dos padrões de construção. Também houve ações para destravar projetos parados por gargalos em infraestrutura, especialmente nas áreas de água, energia elétrica e transporte. Em 2026, a coalizão formada pelos partidos políticos Fianna Fáil, Fine Gael e o independente será fortemente cobrada por resultados concretos.

Tarifas de Trump mantêm incerteza econômica

As tarifas impostas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, causaram menos impacto do que o inicialmente temido no começo de 2025. Produtos estratégicos para a economia irlandesa, como medicamentos e chips de computador, ficaram fora das taxas, o que evitou um golpe mais duro nas exportações.

Por outro lado, setores tradicionais não escaparam. O uísque irlandês passou a enfrentar uma tarifa de 15% para entrar no mercado americano. Outros produtos alimentícios, como a manteiga, também foram afetados.

As tarifas estão gerando receitas expressivas para o governo dos Estados Unidos, o que aumenta a chance de que continuem em vigor mesmo após o fim do mandato de Trump. Para a Irlanda, a imprevisibilidade da política econômica americana segue sendo um risco relevante, sobretudo por causa da forte dependência do investimento estrangeiro direto.

Mudanças climáticas avançam mais rápido que as metas

Os dados científicos são claros. Segundo a Organização Meteorológica Mundial(OMM), 2024 foi o primeiro ano em que a temperatura média global superou 1,5°C acima dos níveis pré-industriais. Além disso, cada um dos últimos dez anos foi, individualmente, o mais quente já registrado.

Esse aquecimento acelerado traz consequências diretas, como o aumento da temperatura dos oceanos, a elevação do nível do mar, a redução histórica do gelo no Ártico e na Antártida e concentrações recordes de gases de efeito estufa.

Apesar desse cenário, Donald Trump voltou a minimizar o problema em discurso na ONU, ao chamar a mudança climática de farsa. Ainda que esse discurso influencie parte do debate político, a Irlanda mantém compromissos legais com a União Europeia para reduzir emissões.

O problema é o ritmo. A Agência de Proteção Ambiental da Irlanda alerta que serão necessárias medidas adicionais e uma implementação mais rápida das políticas já existentes para cumprir as metas nacionais e europeias. A Autoridade de Energia Sustentável do país aponta que as emissões ligadas à energia caem atualmente a uma média de apenas 2,7% ao ano, bem abaixo dos mais de 5% necessários para atingir os objetivos de 2030.

A agricultura também preocupa. De acordo com a EPA (Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos), sem mudanças profundas, as emissões do setor agrícola tendem a aumentar até 2030, em vez de diminuir.

Inteligência artificial traz riscos além das oportunidades

A inteligência artificial(IA) é frequentemente descrita como a maior revolução tecnológica desde a internet. Para Sundar Pichai, CEO do Google e da Alphabet, seu impacto pode ser ainda maior. Na Irlanda, no entanto, essa transformação vem acompanhada de riscos concretos.

O Instituto de Pesquisa Econômica e Social apontou dois pontos de atenção. O primeiro é a possibilidade de uma bolha no setor de IA. Caso esse mercado sofra uma retração brusca, a Irlanda pode ser mais afetada do que outros países, justamente por sua dependência de multinacionais americanas.

O segundo risco está no mercado de trabalho. Embora a IA tenha potencial para aumentar a produtividade, ela também acelera a substituição de mão de obra por tecnologia. Esse movimento pode impactar empregos, especialmente em empresas multinacionais instaladas no país, com efeitos diretos sobre o emprego e a arrecadação de impostos corporativos.









Fonte: RTÉ (Rádio e Televisão da Irlanda)
Tradução, edição e pesquisa: Metrovoz

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